O que o feminismo pode ensinar ao antiproibicionismo?

mujereslutaFoi publicado um texto em uma coluna no site do Hempadão, de autoria de Anna Rodrigues, intitulado de “Mulheres na pauta por Maconha na Brasa”, expressando o posicionamento de nós, mulheres, na luta antiproibicionista no Brasil. A proposta é iniciar uma série de desconstruções que colocam o papel da mulher em certas condições de forma naturalizada, consolidando posicionamentos que não refletem a totalidade do pensamento feminista.

Dessa forma, expresso aqui, inicialmente, que acho uma leviandade falar do papel de nós, sem refletir sobre o que o movimento feminista aponta e discute nesses aspectos, colocando a urgência de, mais do que nunca, reafirmamos nossas aproximações com esse setor historicamente oprimido pelo patriarcado, pelo sexismo e pelo machismo, tão impregnado dentro da sociedade capitalista.

De início, começo por apontar que a afirmação categórica de que a luta das mulheres, assim como o direito dos usuários, se restringem à busca do cumprimento dos direitos humanos, é tornar rasteira a demanda que o movimento feminista e antiprobicionista reivindicam para além de uma carta de princípios. O direito ao nosso corpo é sim uma das dimensões de uma problemática muito maior, e muito mais complexa, no que diz respeito ao papel da mulher nas instâncias de participação política, principalmente quando avaliamos a forma restrita e subjugada que somos submetidas cotidianamente nas mais possibilidades da vida social.

Para além disso, o ponto mais central é a afirmação categóricas que “nós mulheres somos todas Miss, marijuanas ou não” e de que “(…) A noção de humanidade de cada um estará em sua capacidade de conseguir enxergar as várias dimensões e saberes de como se colocar perante o que aprendemos e aperfeiçoamos no dia-dia. O Miss Marijuana é um incentivo a isto (…)”. Não, não somos todas Miss! Não queremos mais ser reduzidas a um esteriótipo que nasce dentro de uma sociedade desigual e opressora historicamente, que nos colocam num patamar em que se instrumentaliza a beleza e a sensualidade como símbolo de uma suposta emancipação e autonomia. Não é essa a nossa luta! Não falem em “nós mulheres” para defender uma projeto político supostamente emancipatório que nos colocam no mesmo patamar de uma planta que são veneradas, adoradas e consumidas. Não! Não é esse o papel que reinvidicamos em tantos anos de massacre sexista, não é sermos reduzidas às mercadorias de consumo.

A percepção é que há uma tendência forte dentro do movimento antiproibicionista de explorar o corpo feminino associada com a maconha que é , em certa medida, uma novidade, porém o que é dificultoso é a incapacidade de perceber todo essa contexto como uma situação de opressão, mas é visto como “ousado”, e é aclamado por todos. Ousadia tem outro nome! Ousar é empoderar as mulheres para que elas se aproximem do movimento de forma mais combativa, mais impositiva, se colocando politicamente num cenário que, querendo ou não, marginalizam-se as militantes, domesticam seus papéis, constrangendo sua atuação. Problema que  esse setor em específico (incluindo-se ai muitas mulheres que ainda precisam adquirir consciência de gênero) vêem muitas delas como um potencial captador de capital para fomentar a venda do nome de alguma mercadoria/produto. Isso nada mais é que  a transferência de uma ordem imposta sob nós, mulheres, para um formato “menos careta”, porém, não menos opressor.

Ser militante vai além de concursos de beleza, calendários com mulheres nuas/semi-nuas. O que acham que passam as mulheres ao enfrentar polícia pra organizar mobilizações políticas? O que acham o que é ser mulher e ouvir todos os dias que o espaço político não é para nós? O que acham de ouvir que o seu conhecimento, por discordar do outro, é fruto de quem você “comeu”? O que acham de ouvir que você serve como “enfeite para os olhos dos homens” em plenárias O que acham de fazer aborto num país em que isso é crime? O que acham de políticas como estuto do nascituro regendo nossos úteros? O que acham de a maior taxa de desemprego ser entre as mulheres superando em 43,5% a taxa de desemprego entre os homens? O que acham dos casos de assédio sexual já terem acontecidos com 52% das mulheres no mundo todo? O que acham do aborto ser a maior causa de mortalidade materna entre as mulheres? O que acham dos  2/3 das mulheres presas hoje são por tráfico de drogas? O que acham das 6 milhões de meninas no mundo todo estarem fora das escolas? O que acham do ambiente doméstico ser cerca de três vezes mais perigoso para as mulheres do que para os homens? O que acham de 28,4% das mulheres morrerem em casa? O que acham de 43,1% das mulheres no Brasil  terem sido vítimas da violência em sua própria residência? O que acham de, a cada 12 segundos que se passam no seu relógio, uma mulher ser estuprada no Brasil? O que acham dos 1.820 pontos de exploração sexual de crianças e adolescentes no país?  Para nós, mulheres, servir de papel para  um júri de homens medir nossa “militância” é aprofundar mais ainda todo essa tirania imposta a nós, e isso não tem nada de libertário, nada tem de agregador para a luta das mulheres, muito menos antiproibicionista, anticapitalista e contra-hegemônico.

Reforçar esses papéis, esses teatros com cortinas de fumaça que enevoam e não ressignificam a condição da mulher, é repetir o que se faz em larga escala no Brasil com os nossos corpos que são facilmente transformados em mercadoria, com valor de uso, de troca, com forma relativa, forma equivalente, fetichista, e todas as outras suas variáveis. Nada mais diferente do que a mídia que massifica, o sistema que homogeniza, e a sociedade que normatiza. Não tem nada de diferente, apenas reproduções, mais do mesmo, é so lembrar o que se faz às mulheres nas propagandas de cervejas, certo?

E, com a indagação posta ao fim do texto em que rebato, repito aqui “o que podemos produzir então para nossa luta?” E discordo com a colocação de que esses são “assuntos futuros”. Isso é um assunto presente, historicamente construído, impregnado nos nossos corpos, perpetuado constantemente, reproduzido em larga escala de opressão, de domesticação e dominação. Romper as amarras que prendem às mulheres a uma posição sexualizada, como se fosse esta naturalmente sua condição; a forma que nós somos representadas geralmente se concretiza na maneira como os homens nos veem e, dessa forma, o modo como eles esperam que nos comportemos.

O movimento antiproibicionista se apresentam com um claro projeto político: a superação da guerra às drogas, e do sistema que está imbricado nas suas relações com um claro recorte de classe e racial. É claro que esse projeto não se concretizará de maneira espontaneísta, sem atuação dos setores historicamente oprimidos na sociedade capitalista, e isso perpassa a construção de lutas conjuntas com outros movimentos, organizações políticas, que apontem para uma saída de suplantar a ordem social, política, e econômica vigente, ou , como diria Huxley, em Admirável Mundo Novo: “”A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros onde os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura, onde graças ao consumo e ao divertimento,  os escravos terão amor à sua escravidão” .

P.S.:  Outro texto que contribui enormemente ao debate é de autoria do Coletivo Dar – “Sexismo na marcha da maconha? Não em nosso nome!

Por Isabela Bentes (Mestranda em Sociologia pela UnB) – Setorial Política sobre Drogas do PSOL

 

 

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