Get up, stand up: stand up for your rights!

ImagemOuvindo por esses dias uma música da banda Natiruts, que se reinvidica como do gênero musical reggae, a letra que ele cantava era expressa na frase: “Eu vou surfar no céu azul de nuvens doidas da capital do meu país, pra ver se esqueço da pobreza e violência que deixa o meu povo infeliz”.Ao parar e perceber o conteúdo da frase que, em outras linhas pode ser traduzida pela fórmula de: “vou chapar e esquecer o que existe de ruim no mundo”.

O que isso tem de relevante para nossa discussão? Um primeiro ponto é refletir sobre o papel que o reggae teve no início, na raiz, de sua criação, da sua fundamentação histórica de expressão das desigualdades. Bob Marley, maior ícone do Reggae, trouxe essa forma de manifestação musical como uma forma de atuação política e, acima de tudo, de denúncias de violência ao povo negro, escravizado, que teve sua história, sua cultura, e suas raízes negadas num processo de colonização e exploração violentíssima. Bob colocava em suas músicas o papel que a cannabis, conhecida popularmente como maconha, desenvolvia nesse contexto: sua utilização para fins religiosos (que não cabe aqui fazer julgamento sobre a religião rastafári, nem qualquer outra que faça uso da cannabis para fins ritualísticos) e, acima de tudo, uma planta que era o símbolo da resistência contra todo esse passado e presente de opressão aos negros/negras africanos, jamaicanos, e oprimidos pelo sistema do capital.

Não precisa de muitas horas para encontrar isso nas palavras musicadas do Bob Marley, nas músicas “Africa Unite”, “Iron Lion Zion”, “Jamming”, “Legalize it”, “Rebel music”, “Redemption Song”, “The Oppressed Song”, “Them Belly Full”, “Revolution”, “Zimbabwe”, “War”, “Concrete jungle”, “Stir it up”, “Get Up, Stand Up”,  e mais inúmeras outras músicas que expressam essa indignação perante o sistema “babilônia” que ele percebia.

ImagemApesar de ser símbolo de uma tradição de luta no meio musical, e fora dele também, o Bob Marley abria a porta da sua casa na Jamaica para seu povo, para seus pares, para aqueles que eram irmãos/ãs e, portanto, compartilhavam de toda história de dominação imposta, de toda vexação que o imperialismo exerceu sobre este território, de toda anulação de direitos e, acima de tudo, a violência que eram submetidos frente a uma desigualdade social latente que dizimou, e ainda dizima, frente a um embate de classes muito bem definido entre opressores e oprimidos.

Hoje, seus herdeiros musicais, ou aqueles que se reinvidicam como tal, expõe sua consciênca burguesa atribuindo ao uso de uma substância que, historicamente lhe é símbolo de resistência contra a opressão e de luta contra a dominação, algo com poder alienante de negação da realidade tal como ela é, e não de superação como alguém muito antes do Bob Marley já tinha apontado. Precisamos resgatar esse valor que não é naturalmente intríseco ao uso da maconha, mas que traz em sua história um processo criminalizador de cor e classe, e que isso tem que ser superado, não negado. É preciso voltar às raízes de quando a maconha, a diamba, a liamba, o dirijo, tinha um papel fundamental na organização dos grupos sociais, que era símbolo e instrumento de superar a dor imposta pela tirania dos poderosos, que davam forças para a luta, que provocavam o questionamento daquilo que parecia natural, eterno e desconectado dos processos históricos.

Sempre achei que a maconha era um símbolo da esquerda. Para além do seu caráter socializador, fraternal, comunicativo, crítico, criativo, acreditei (e ainda acredito) que a revolução será cannábica, ou não será! E não digo essa cannabis que insere o/a seu usuário numa imersão alienante negacionista da realidade social tal qual ela é e se apresenta, mas essa cannabis que um dia foi ( e para alguns ainda o é) uma maneira de resistência, luta e liberdade. Não aquela liberdade restrita, não aquela resistência domesticada, nem aquela luta mínima. Mas daquela liberdade plena, daquela resistência abolicionista, e daquela luta emancipadora!

Por Isabela Bentes (Mestranda em Sociologia pela UnB) – Setorial Política sobre Drogas do PSOL

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