A droga, no ar, sublima

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O que mais impressiona sobre o cinematográfico episódio que envolveu 445 kg de cocaína e um helicóptero pertencente ao Deputado Estadual (SDD/MG) Gustavo Perrella, filho do ex-dirigente do Cruzeiro Zezé Perrella, atualmente senador (PDT/MG), não é a água morna com a qual a grande mídia tratou o assunto. Isso, irritemo-nos ou não, é sistematicamente produzido quando interesses privados sobrepõem-se aos públicos: parece ser o caso da possibilidade de esse fato recair na já quase-anunciada candidatura à presidência do Senador Aécio Neves (PSDB/MG), cuja base aliada em Minas Gerais é formada pelos partidos de Gustavo e Zezé Perrella, dentre outros.

Interessante é que com muita dificuldade ouvimos ou lemos nos noticiários os termos “tráfico” ou “traficante” associados à apreensão de quase meia tonelada de cocaína. O eufemismo midiático diluiu o óbvio em termos mais palatáveis, como “transporte”, “frete”, “carga” e, quando muito, “suposto tráfico”. Não se trata aqui de condenar o transporte de substâncias psicoativas, as quais nós do Núcleo Isegoria defendemos a legalização – e, deixando tudo bem explícito: defendemos a legalização das drogas para além da famigerada maconha. Mas, importa sim discutir, até mesmo para melhor compreender o que significa a atual guerra às drogas, que tipo de pessoas podem ser classificadas pela categoria “traficante”.

A ausência do termo para se referir aos envolvidos nesse episódio revela, de modo bastante claro, o quão o nomear “traficante” pode ser estigmatizador e produtor de ideias e de valores. E, sabemos bem em que circunstâncias essa poderosa palavra aparece. Não há dúvidas, por exemplo, quando, configurado o “auto de resistência”, um indivíduo classificado como “traficante” perde o direito à vida: executa-se sumariamente, com apoio da “opinião pública”, diga-se grande mídia, sem que o sujeito tenha passado por qualquer instância do poder judiciário.

“Violentos”, “cruéis”, “perversos”, “bárbaros”, “poderosos” são os termos que adjetivam o “traficante”. E, terei de concordar com todos eles. Não são poucos os casos de famílias inteiras arrasadas pelo “tráfico” de drogas. Mas, por que então nenhum desses mesmos termos foi utilizado para qualificar Gustavo Perrella, o piloto e co-piloto? A ausência só pode ser encontrada em um lugar: o helicóptero. A droga, no ar, sublima quem a trafica: já não pode ser a mesma quando encontrada em terra. Pois, associados ao termo “traficante” não estão somente os “violentos”, “cruéis”, “perversos”, “bárbaros”, mas também os “negros”, “pobres” e “favelados”. É por isso que, de acordo com a mentalidade da atual guerra às drogas, nesse episódio do helicóptero do pó ninguém pode ser classificado como traficante. São apenas transportadores endinheirados, influentes e conhecidos de mercadoria ilícita.

Tudo isso pode nos ensinar muito mais do que a velha e conhecida ligação entre imprensa e poder público. Podemos, a partir desse episódio, perceber como as palavras “tráfico” e “traficante” possuem uma função bem específica. E, ela não objetiva o controle sobre as drogas; mas procura diariamente nomear, classificar e repartir determinados setores sociais para que certas ações do poder público possam ser melhor justificadas e reproduzidas. Dizendo de outra forma, esses termos têm função de capilarizar as forças mais brutas do Estado justamente nas regiões mais pauperizadas e vulneráveis, onde a reação contra a opressão socioeconômica sempre se faz sentir, mesmo que em potência.

Por isso, lutar pela legalização das drogas é também lutar contra a criminalização da pobreza.

Igor Cardoso, membro do núcleo PSol Isegoria e do Setorial Política Sobre Drogas

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